Muito dado, pouca entrega; porque o Brasil não acelera e como mudar isso agora?
Adm. Aluysio Fonseca
7/24/20253 min read
O recente relatório Sustainable Development Report 2025 (SDR‑2025) revela que o Brasil se encontra numa posição intermediária no avanço rumo aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em comparação a 167 países analisados, ocupa a 54ª colocação, com pontuação de 73,8 (em escala de 0 a 100).
Ainda assim, nenhum dos 17 ODS está plenamente adequado para ser cumprido até 2030, apesar de alguns ganhos pontuais. Com exceção do ODS 7, referente à energia limpa e acessível, o país enfrenta grandes desafios em metas essenciais, destacando-se especialmente quatro áreas delicadas: vida na água, vida terrestre, paz e instituições eficazes, e parcerias para implementação.
A análise detalhada do SDR‑2025 mostra entraves sistêmicos importantes que explicam a dificuldade brasileira em acelerar a agenda sustentável. Um deles reside na insuficiência do investimento público em setores estratégicos como saúde e educação, hoje apenas 14,4% do PIB, avaliado como nível crítico pelo relatório.
Esse subfinanciamento compromete diretamente as políticas sociais, afetando negativamente a redução da pobreza e das desigualdades, e a ampliação do saneamento básico universal. Outro fator determinante é a baixa intensidade científica e inovativa do país, apesar da sólida infraestrutura digital e logística, avaliada positivamente pelo SDR.
O Brasil dispõe de boa conectividade, com acesso à internet atingindo 84,2% da população e ampla cobertura de banda larga móvel, entretanto, a produção científica e tecnológica permanece muito baixa, com apenas 0,4 artigos por mil habitantes e 34,2 patentes por milhão de pessoas, números insuficientes para impulsionar uma verdadeira transformação econômica e tecnológica. Essa situação resulta num paradoxo onde se observa infraestrutura robusta, mas escassez de inovações genuínas que seriam importantes para avanços nos demais objetivos sustentáveis.
As fragilidades institucionais também prejudicam o avanço brasileiro nos ODS, pois, indicadores como a percepção da corrupção (69 pontos), liberdade de imprensa (80,1 pontos) e acesso à justiça (0,73 pontos), estão classificados entre os desafios mais críticos. Esses aspectos institucionais são vitais, pois garantem estabilidade e eficácia na execução de políticas públicas, condição fundamental para acelerar o cumprimento dos ODS.
Sem confiança nas instituições e sem um ambiente transparente e eficiente, o desempenho nas demais metas fica comprometido e além disso, persistem problemas ambientais significativos, especialmente quanto à qualidade do ar nas cidades (concentração de PM2,5 de 14,4 μg/m³), emissões elevadas de nitrogênio por habitante (56,5 kg/capita) e a baixa participação das energias renováveis no consumo final (apenas 14,3%).
Apesar de possuir emissões domésticas de CO₂ relativamente baixas (2,3 toneladas per capita), o país importa quantidades consideráveis de emissões embutidas em bens adquiridos internacionalmente e esse desequilíbrio revela que as cadeias produtivas brasileiras ainda estão longe de serem sustentáveis, exigindo políticas públicas orientadas à sustentabilidade das aquisições e ao estímulo de cadeias de valor mais limpas.
Nesse contexto, gestores públicos devem assumir uma abordagem estratégica mais incisiva para enfrentar esses desafios, é preciso adotar planos de ação concretos baseados nas métricas do SDR, com metas claras e mensuráveis. A gestão pública necessita orientar explicitamente o orçamento e as ações do plano plurianual e leis orçamentárias às metas dos ODS, estabelecendo contratos de gestão que condicionem recursos à melhora efetiva dos indicadores monitorados.
Sugere-se também o fortalecimento de políticas de inovação que induzam geração local de patentes e artigos científicos, além de integrar critérios ambientais rigorosos nas aquisições públicas. Instrumentos como fundos competitivos condicionados a resultados mensuráveis pelos indicadores do SDR podem reforçar as ações públicas, premiando bons desempenhos em sustentabilidade e inovação.
A transparência via painéis de dados públicos trimestrais também ajudaria a reforçar a responsabilização dos gestores, gerando uma governança baseada em evidências e por fim, a posição brasileira revela uma dualidade crítica: apesar de bons indicadores estatísticos, não há uma estratégia integrada suficientemente robusta para transformar dados em resultados concretos.
É urgente, portanto, um compromisso público renovado que converta diagnósticos precisos em ações efetivas, alinhando gestão, orçamento e monitoramento à execução rigorosa e mensurável dos ODS até 2030.
Aluysio Fonseca – É doutorando em Biotecnologia, Mestre em Gestão Pública e Bacharel em Sistemas de Informação (UFPI) e Bacharel em Administração (UNIFSA).
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